Era um domingo chuvoso, fazia frio no carro e algo dizia a ela que hoje seria mais um dia sem notícias dele. Ela pegou o livro que estava na sua bolsa rosa favorita e tentou se enganar, fingindo que estava entendendo aquela louca história de ficção quando na verdade estava apenas folheando sem se focar muito em qualquer coisa. Ela pensava muito nele e não importava muito se era na chuva ou no sol, de dia ou a noite, em algum lugar da rua, no elevador, ou dentro de casa, ela simplesmente pensava muito nele, nele e na ironia que era tudo aquilo! Afinal, ela quando ainda era uma desapaixonada dizia que amor, nunca era demais e hoje ficava tentando esvaziar esse amor inflamável, parecia uma doença degenerativa, pensava: Contagia todo o meu corpo. As pessoas geralmente, acabam procurando exatamente o que vai doer mais fundo, cada vez mais. E a diferença dela para essas pessoas é que ela fazia isso de forma consciente e acabava com medo, medo de ser compulsiva e tanto amor acabar lhe fazendo mal. O carro parou e ela pensou que Deus tivesse querendo pregar uma peça nela, talvez porque queria vê-la sofrer por todos os outros caras que ela não deu valor ou talvez fosse um sinal de que eles dariam certo. O carro havia parado em um sinal, ele estava atravessando a rua na faixa de pedestres bem em frente a ela, a mesma calça rasgada no bolso esquerdo que ela já havia esquecido de como caia bem nele, os fones acoplados aos ouvidos e com as batidas aceleradas do coração ela ficou tentando adivinhar qual a música que ele estava escutando e em uma fração de segundos o sinal ja estava aberto e sua carona foi embora deixando ela na dúvida se ele escutava o chico ou beatles. [...] O clima nostálgico do que ela tinha acabo de ver a dois quarteirões de casa, havia feito ela remexer a gaveta procurando o bilhete que ele havia deixado junto de uma camisa e um CD. O CD era o preferido dos dois, que havia sido escolhido após uma eleição muito justa onde o voto dela valia mais e ele nem ligava porque ela havia feito o seu bico favorito. A camisa, bem, a camisa não era nem de um, nem de outro, era o único objeto que guardava o cheiro dos dois, como um amuleto, um símbolo, eles haviam comprado no primeiro show que foram juntos, onde ele percebeu que era com ela que queria ir para todos os outros show de sua vida, ela não, ela havia percebido isso um pouco antes, no momento exato que ele chegou com os ingresso para ver sua banda favorita, sem ela nem ter mencionado que ouvia aquele som. O bilhete ainda estava no mesmo lugar e ainda não fazia sentido, como não fez a exatos 67 dias atrás:
Lua,
Estou levando comigo uma cópia do nosso disco, confesso que fiquei tentado a mudar a faixa 2 de lugar, mas não tive coragem. Peguei o seu frasco reserva de perfume, por dois motivos: pra ir me desacostumando aos poucos do teu cheiro e porque imaginar o seu biquinho de braba que você está fazendo agora, me faz dar um sorriso de meia boca. Sei que posso estar sendo egoísta, mas posso te pedir um favor? me guarda como sua melhor saudade! Adeus minha lua, até o próximo eclipse,
do teu, pra sempre teu, Sol.
Logo que leu o bilhete ela não derramou lágrima alguma, achou, a princípio que tudo aquilo fosse uma grande brincadeira, que ele havia apenas ido se alimentar em um boteco de uma esquina qualquer. Ela se enroscou na camisa, ligou o toca-fitas e deitou, ficou deitada por oito horas seguidas, revivendo mentalmente a história dos dois desde o começo e tentando entender o que havia de errado, pensou em perguntar para alguém, pedir conselhos, mas nem um profissional poderia ajudar, eles eram tudo, menos convencionais e ela não pensava em mais ninguém que não fosse ele para acompanha-la em um piquenique num parque a tarde, ou em alguma dessas reuniões chatas e inconvenientes de condomínio. Depois de 67 dias ela havia o avistado pela primeira vez, mesmo sentindo-se perto dele as vezes. Havia resistido por 67 dias, hoje ela discou o número do seu celular, pela primeira vez.
[CONTINUA]
Fernanda Barros
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